- Bruna! Está na hora de acordar minha filha... já são quase meio dia, o sol está lá fora e você aqui dentro. Chame sua irmã e vá para a praia.
Bruna levantou devagar da cama, a cabeça doía, parecia que havia apanhado a noite inteira. Tivera um sonho estranho, sonhou que corria pelas ruas debaixo de uma bruma, com um lobo demoníaco atrás dela e logo depois uma mulher surgiu das sombras e cravou as unhas em seu peito, tentava arrancar algo dali. Mas parecia tão real, ela podia sentir as unhas da mulher perfurando sua carne, podia sentir sua vida se esvaindo até que... Um homem, apareceu e depois... já não se lembrava de mais nada.
Ela levantou devagar da cama, caminhou para o banheiro, trancou-se lá dentro e preparou-se para o banho. Um hábito estranho esse de tomar banho antes de ir à praia, mas ela encarava omo uma purificação da noite, uma purificação dos pensamentos, era apenas mais um ritual como os tantos outros que realizava. Bruna é uma wicca, uma adoradora da natureza e da mágica que nela existe. Acreditava que o planeta era uma forma de vida, como ela própria era, acreditava que cada componente do planeta, as forças elementais também eram vivas e estava aprendendo a lidar com elas aos poucos, de certa forma era mais uma iniciante do que uma wicca propriamente dita.
Olhou-se no espelho e recitou sua saudação matinal, um ritual tão antigo quanto os contos celtas, mas essencial para iniciar um dia, uma reunião, uma vida. Então reparou em seus cotovelos, estavam ralados, exatamente como no seu sonho. Ela se assustou e então tirou sua blusa para verificar se as marcas das unhas também estavam presentes e lá estava... 5 pequeninas marcas de unhas. Ela as tocou, não pareciam reais, nada daquilo parecia ser real.
Alguns momentos depois sentou-se à mesa do café, pegou um pedaço de pão enquanto sua mãe comentava:
- Cuidado ao andar por aí Bruna, ouvi os vizinhos comentando que ouviram uivos bem altos ontem a noite, parece que algum dos condôminos deixou um cão à solta. E como se não bastasse isso, viram um homem caminhando pelas ruas do condomínio. Não se é mais seguro em lugar nenhum do mundo e enquanto seu pai não voltar do Rio de Janeiro, você deve me ajudar a cuidar da sua irmã.
- Claro mãe. - Desde de que completara 19 anos sua relação com a mãe baseava-se em monólogos e respostas monossilábicas, não porque tivessem algum problema, mas Bruna era uma garota fechada.
- Eu sei me cuidar mãe, não preciso da Bruna me vigiando todo o tempo. - Natalie sua irmã mais nova falava para a mãe - Tenho 15 anos, já sei me virar.
A mãe sorriu e o café seguiu por mais alguns minutos até que Bruna e a irmã se arrumaram e caminharam até a praia. Ela deixou Natalie tomando sol e sentou em uns bancos de pedra mais perto da água. Fechou os olhos, gostava de sentir o vento esvoaçando seus longos cabelos loiros, gostava de imaginar que seus olhos azuis um dia seriam tão profundos quanto o mar que ela ouvia.
- É um belo lugar não acha? - Uma voz masculina surgiu atrás dela, ela se espantou de início, mas ao virar para ver o dono da voz ficou pálida. - Era o homem que a havia salvado na noite anterior, mas ele já não exibia asas, só o mesmo jeans rasgado e a camiseta branca, com alguns respingos de sangue.
- Você... É você!
- Sim, sou eu. Posso me sentar? Estou um pouco cansado, você me deu muito trabalho ontem a noite garota. - O rapaz sentou-se ao lado dela no banco e esticou as costas, parecia brutalmente cansado.
- Quem é você? O que é você? Como isso tudo pode ser real? - As perguntas saíam rápidas como disparos de balas e o jovem sorriu tentando acalmar a garota.
- Já tive muitos nomes, mas pode me chamar pelo nome que meu Pai me deu. Me chame de Joaquim... Quanto às outras perguntas vamos com calma, creio que você sabe a resposta de algumas.
- Eu sei as respostas? Você está louco?
- Acredite no que viu ontem, nada daquilo foi um sonho, não lute contra isso, deixe que a percepção domine você. Você é uma agente da natureza, deveria lidar melhor com essas coisas.
- Está me pedindo pra lidar com um homem com asas, uma mulher que surge das sombras e um lobo demoníaco? Meus rituais são bem mais simples, acredite e nem um pouco perigosos se comparados a ter seu coração arrancado por uma sombra! - Ela perdia o controle da respiração novamente.
- Lilith e Hati não a incomodarão mais, fique tranquila, para eles você está morta. Hati pelo menos não vai mais incomodar você, nem ninguém mais.
- Você o matou?
- Definitivamente.
- Ainda não me disse quem é. - Ela tentava organizar os pensamentos
- O nome não é suficiente? - Joaquim dava respostas evasivas.
Ela olhou para ele e de certa forma sentiu que seus olhos azuis causaram um impacto nele, porque ele novamente deu um sorriso de canto de boca.
- Ok. Eu sou um anjo, ou costumava ser, depende do ponto de vista.
- Como costumava ser?
- Você morreu ontem a noite garota. A mulher foi embora porque retirou de você o que ela queria, sua energia vital. O único jeito de impedir que você morresse era compartilhando com você a minha própria essência, foi o que eu fiz, mas isso tem suas desvantagens.
- Quer dizer que eu sou um anjo agora? - Ela perguntou pra ele um tanto incrédula
Dessa vez Joaquim deu uma gargalhada bem alto.
- Não, claro que não. Significa que você tem a minha essência, mas se sonha em ter asas, sinto desapontar você.
- Isso não deveria tirar sua vida?
Ele sorriu mais uma vez.
- Isso apenas me atrasou, mas era necessário que você continuasse viva.
- Por que?
- Uma longa história que não vou contar agora, mas... Uma grande guerra está por vir e os sinais estão por toda a parte. É importante que você esteja viva, porque você tem um papel muito importante nas batalhas que estão por vir. Me faça um favor? Mantenha-se viva e venha me buscar.
- Buscar você? Mas você está bem diante de mim. - Ela ficava confusa cada vez mais.
- Você ainda tem muito a aprender... Mas me faça esse favor, apareça amanhã à noite em um pequeno chalé, no caminho para Rio das Ostras, peça a uma idosa para me ver. Ela já foi avisada não se preocupe. E a propósito, traga biscoitos e refrigerantes, se possível um hamburguer. Estou precisando de alimentos calóricos.
- Mas de que merda você está falando? - Ela se exaltou.
- Bruna! Bruna! - Natalie estava gritando ao longe, mas ao se virar pode ver que ela estava bem ao seu lado.
- Natalie? Mas de onde você veio? Como surgiu aqui do nada?
- Do nada? Já estou te chamando há quase uma hora. Você parecia em transe. Aquelas bruxas andam te dando alguma droga não é? - Natalie sorriu, por mais que Bruna explicasse que não eram bruxas, Natalie e sua mãe jamais entenderiam.
- Primeiro não somos bruxas, segundo isso é impossível, acabei de me sentar aqui!
- Você está muito estranha, já estava há uns 40 minutos falando sozinha.
- Sozinha? Mas tem um amigo aqui bem do meu... - Ao se virar para mostrar Joaquim ela reparou que estava sozinha. Será que ela estaria louca? Será que havia sido mais um sonho?
- Vamos, mamãe está nos esperando pro almoço, sua doida.
Elas levantaram e começaram a caminhar de volta para casa. O mundo girando ao redor de Bruna, tantas perguntas e nenhuma resposta, mas as palavras de Joaquim ecoavam em sua mente. "Acredite no que viu ontem, nada daquilo foi um sonho, não lute contra isso, deixe que a percepção domine você." Na noite seguinte ela estava decidida a ir até o chalé, precisava acreditar que aquilo era real, pois do contrário o próximo passo seria procurar um psiquiatra.
Continua..............................................................
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
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