Os trovões pararam de agitar a casa e logo a chuva também cessou, um silêncio mortal baixou sobre a casa. Bruna olhava para a estranha figura em pé diante dela, um guerreiro nórdico enquanto ele também a encarava, curioso. Enquanto isso Sarah estava de pé, a meio caminho dos dois, apesar do silêncio havia uma certa tensão na casa, um desconhecimento.
- Odin... - Bruna começou a falar - Odin como o deus nórdico?
- É um jeito de ver as coisas. - Odin respondeu.
- Acho melhor todos nos sentarmos - Foi a vez de Sarah falar - farei um chá para todos.
Bruna puxou uma cadeira e sentou, seguida por Odin, eles ainda se encaravam. Bruna olhou para os estragos na casa, para a roupa suja de sangue, então voltou os olhos para a mãe morta sobre a cama da mestra e novamente olhou para Odin.
- Ele morreu? - Ela perguntou
- Asmodeus?
- Sim. Ele morreu? - Ela perguntou novamente.
- Eu o bani temporariamente. Mas ele pode voltar, podem demorar semanas ou anos, não sei com que velocidade ele poderá se regenerar no inferno.
Bruna então sorriu, bateu a mão na mesa e sorriu novamente.
- Por que está rindo? - Odin estava curioso.
- Porque eu mesma quero ter o prazer de matá-lo. Pela minha mãe, pelo meu pai, pela minha irmã... Eu mesma devo matá-lo.
Foi a vez de Odin rir. O ódio da garota o divertia, ele era um elemental temperamental, nada mais que o esperado para o senhor dos trovões, pai das tempestades e divindade nórdica. Ele colocou sua espada em cima da mesa e empurrou para Bruna.
- Considere isso um presente. Use-a para matar Asmodeus e qualquer outro ser que te faça mal. Uma estocada no coração destruirá ele, para sempre.
Bruna olhou para a espada, pegou pelo cabo, mas não tinha destreza para manejá-la, era pesada. Ela nunca soube lutar, seria complicado aprender de uma hora para outra.
- Eu não sei lutar.
- Eu posso lhe ensinar.
A conversa seguiu sem grandes acontecimentos. Bruna continuou perguntando sobre o manejo de espadas e Odin falava sobre como usá-las, contava histórias sobre batalhas, muito anteriores ao surgimento do mundo moderno. Era quase surreal a cena, sentados à mesa, falando sobre trivialidades enquanto a mãe da garota estava morta no quarto e os miolos de Asmodeus se espalhavam pela sala. Sarah voltou com o chá e ofereceu uma xícara para cada um.
- O que você é? - Bruna perguntou para Odin - Anjo?
- Não, graças ao Pai que não. Sou um elemental, uma divindade da natureza.
- O que isso quer dizer?
- Sou a personificação de algo que você pode ver na natureza. Tudo é. Existem mais criaturas neste mundo além de anjos e demônios minha criança. Eu e você somos uma delas.
- O que quer dizer com "eu e você"? Eu sou apenas uma humana. - Bruna teve um sobressalto.
Odin contou uma longa história, uma história sobre o surgimento do mundo e o oitavo dia. Então contou sobre as batalhas ancestrais entre elementais e demônios, contou sobre como essas divindades viviam longe dos olhares angélicos, falou sobre a história de Gaia e Emanuel. Contou sobre as novas políticas angelicais e sobre a guerra no céu. Histórias tão fantásticas que se não fossem as últimas 48 horas da vida de Bruna ela jamais teria acreditado e ainda assim ela tinha seus receios. Mas era impossível negar, o que ela viu naquela noite... Só podia ser real.
- Por que eu? O que eu tenho a ver com toda essa guerra, com anjos, demônios e elementais? Eu sou só uma garota normal! - Bruna ainda não acreditava.
- Lembra o que falei sobre o amor proibido entre Emanuel e Gaia e o modo como eles tiveram filhos?
- Lembro.
- Os filhos dos imortais foram tornados estéreis por ordem de Deus. Primeiro ele tornou as próprias divindades estéreis, anjos e elementais. Por fim os filhos deles foram proibidos de se relacionar com humanos a fim de procriarem, aquele que desobedecesse seria morto. Mas como você pode imaginar, isso não se sucedeu muito bem. Alguns foram escondidos, outros fugiram, mas a verdade é que muitos geraram descendentes. E você, minha criança, você é uma dessas descendentes. Mas não uma qualquer, é descendente direto do primeiro casal imortal: Gaia e Emanuel.
- O que você quer dizer? Isso é impossível.
- Você viu o que fez no incêndio não foi? Você viu como conjurou aquelas chamas, aquele poder não pode ser usado por qualquer humano. Deve-se ter algo a mais e você tem! Você é de fato a humana mais poderosa deste planeta. Mesmo após milênios de misturas com humanos, você ainda preserva a essência primordial e é isso o que a torna tão poderosa e tão perigosa.
- O que quer dizer?
- Uma batalha se aproxima garota, uma batalha que decidirá o futuro do mundo conhecido e de todos os seres deste universo e de outros além deste. E você... Você é a chave para essa batalha, sua essência é a chave. Por isso os demônios a querem, pois com ela Lúcifer atingirá os céus e conquistará ele. Por isso nós, os elementais devemos protegê-la. Por isso a escondemos dos próprios anjos, pois se eles possuírem um poder tão grande, nas mãos erradas poderia ser ainda pior.
- Estou cansada de fugir e me esconder, estou cansada de ter que depender de outros, de ver minha família morrer. Chega! Se é tão importante assim que eu viva, me ensine a lutar pela minha própria sobrevivência.
- Isso demandaria tempo, não sei se o temos. Fui enviado aqui para protegê-la, não para deixá-la se virar sozinha.... - Odin disse.
- Mas...
- Eu a treinarei tio. - Sarah disse olhando firmemente para Odin.
- Como? - Ambos olharam para a ruiva.
- Ela é minha discípula, está no meio do caminho para se tornar wicca. Com um pouco de tempo posso treiná-la, ela tem potencial e seria de grande ajuda na batalha que está por vir se puder lutar e usar suas habilidade. Precisamos de todas forças que temos para deter Lúcifer.
- Quanto tempo? - Odin perguntou.
- Três anos, é tudo o que eu preciso.
- Acho que posso levar isso ao conselho. - Ele coçou a barba - Logo se vê que é descendente de Volcano! A determinação é uma chama que nunca morre. - Então Odin começou a rir.
- Descendente de Volcano? - Bruna perguntou.
- Sim, o senhor das chamas, dos vulcões, a divindade que pode destruir e construir... Acha que meus cabelos ruivos são a toa? - Sarah riu.
- Somos primas então?
- Pode apostar que sim. - Sarah falou sorrindo.
Bruna se permitiu rir, sua família havia sido destruída, havia perdido o que tinha de mais importante para si, mas começava a ver que não perdera somente algumas coisas... mas ganhara outras também. Estava ganhando uma nova família, estava ganhando a chance de se vingar. E isso já lhe dava forças suficiente para seguir em frente.
Os três presentes se olharam e sorriram, as coisas estavam prestes a mudar.
Enquanto os bombeiros terminavam de apagr o fogo da casa, um grupo de paramédicos saía dela com uma maca. Deitada sobre ela o corpo de uma adolescente, 15 anos talves, parcialmente queimado. O pulso estava fraco, os batimentos iam se desacelerando, não havia esperanças de que sobrevivesse.
Então houve silêncio, os batimentos pararam. Durante 3 minutos tentaram ressuscitá-la, mas de nada adiantou, estava morta, não havia esperança, não havia mais nada.
- Hora da morte três e quinze. - Um médico falou, fechou as portas da ambulância e saiu.
Apenas uma paramédica continuava ali, sentada olhando para o corpo. Ela sorria, sabia que ainda havia esperança, podia escutar o quase inaudível som de uma leve contração cardíaca, a garota só precisava do estimulante certo.
A paramédica tinha longos cabelos pretos que caíam nas costas, um sorriso demoníaco dançou em seus lábios.
- Então eu não faço nada certo? - Lilith falou - Vamos ver o que acha disso Asmodeus.
Ela pegou um pequeno bisturi e cortou um dos seus próprios pulsos e enquanto via o sangue escorrer ela deixou as gotas caírem na boca da garota quase morta. Gota a gota os olhos de Lilith brilhavam de uma forma demoníaca.
Então seguiram-se espasmos no corpo da adolescente deitada na maca, os batimentos ficaram mais fortes. Ela abriu os olhos, sua íris estava vermelha como sangue, uma escuridão havia se apossado da garota, um brilho demoníaco surgiu no fundo da alma daquela garota, ela não sabia onde estava, não sabia quem era a mulher na sua frente... Não conseguia se lembrar, só sabia que precisava de mais daquele sangue.
Lilith sorriu novamente, quase gargalhou.
- Bem vinda de volta, Natalie.
Continua...................................................................
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
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