Bruna dirigia devagar pra casa, forçava o carro a andar em uma marcha reduzida, em uma velocidade reduzida. Não tinha pressa de chegar em casa, já não tinha mais pressa pra nada, seu mundo havia virado de cabeça pra baixo do dia para a noite e todos os seus sonhos e pesadelos pareciam se tornar reais. Alguns carros passavam por ela buzinando, outros apenas piscavam o farol, mas ela sabia que no fundo todos a xingavam pela baixa velocidade. Mas ainda assim não tinha pressa.
Um camaro ZL-1 preto parou na rua. Asmodeus desceu altivo como sempre, caminhou pelo jardim devagar em direção a entrada da casa. Uma voz ecoou das sombras formadas pelas árvores no muro, ela chamava seu nome, era uma velha conhecida, uma conhecida de milênios.
- Asmodeus, o que veio fazer aqui? - A voz sibilava.
- Vim terminar o que você deveria ter terminado noite passada, mas foi incompetente demais para fazer.
- E quem te deu o direito de falar assim comigo, seu pequeno pedaço de merda? - A voz ficou agressiva.
Asmodeus se virou, as mãos agarrando as sombras, era como se ele as puxasse para fora da parede, um pequeno vulto surgiu, o vulto de uma mulher. Ele arrancou com força o vulto da parede e a jogou no chão. O corpo tomou forma enquanto rolava pela grama, uma mulher vestindo um corpete negro e uma calça da mesma cor, os cabelos eram tão escuros quanto as sombras e caíam embaraçados pelo corpo.
Asmodeus se agachou ao lado da mulher, seus olhos assumiam um tom vermelho como o sangue o que fez a mulher tentar recuar um pouco, mas ele a puxou pelos cabelos.
- O que me dá o direito de falar assim com você? Deixe eu pensar... Talvez o fato de eu andar pelo universo há muito mais tempo que você, ou então o fato de eu ter sido um general querubim, ou talvez o fato de você ser apenas uma humana, uma mulher rejeitada que fez carreira no inferno deitando-se com todos os anjos caídos... - Asmodeus passou a mão no rosto dela devagar, quase com carinho - Lilith, nunca mais me desafio ou terei o prazer de torturar você por mil anos.
Ele se levantou calmamente caminhando em direção à porta da casa. Virou-se por um breve momento para falar algo, mas a mulher já havia sumido, voltando as sombras, bem longe dali, bem longe de Asmodeus. Ele bateu na porta, duas batidas rápidas até que uma mulher apareceu sorrindo por reconhecer a figura que surgia na sua frente.
- Asmodeus? O que faz aqui a essa hora? Já não deveria ter voltado? - A mulher perguntou.
- Fiquei com sono no caminho para casa, não estava muito longe daqui, tive medo de prosseguir na estrada com sono, sabe como é perigoso. Queria saber se não teria um café, ou uma água, enquanto eu descanso um pouco. - Ele sorriu
- Claro, entre por favor. Me acompanhe até a cozinha. - A mulher virou-se e foi na frente.
- Você é um anjo Martha, um anjo eu devo dizer.
Martha começou a fazer um sanduíche, enquanto Asmodeus sentava-se na sala. Então ele se levanta e avisa que está indo ao banheiro. No caminho ele pára e entra no quarto das filhas de Martha, mas quem vê ali dormindo não é quem ele queria. Natalie dormia enrolada nas cobertas, dormia como um anjo. Asmodeus sorriu.
- Garota de sorte essa Bruna, achei que já teria voltado da casa da amiga. Mas não vou perder a viagem, já que ela foge de mim, vou deixar um pequeno presentinho pra ela quando chegar. - Ele susurrava. - Que o jogo comece.
Bruna estava chegando em casa quando algo a fez gelar ao volante. Um clarão surgia de dentro do condomínio onde ela morava, então labaredas surgiram no céu. Ela pode ouvir ao longe o crepitar das chamas e o cheiro de queimado. Ela começou a tremer... Vinha da exata direção onde ficava sua casa. Ela passou as marchas e acelerou para entrar no condomínio.
Quase atropelou um guarda que estava em seu caminho. Um pensamento lhe passou pela cabeça, mas não poderia ser, não aquilo, aquilo era demais.
Quando chegou finalmente ao seu destino não pode acreditar, saiu do carro gritando em direção as chamas. Era sua casa, sua casa que estava pegando fogo. Ela ouviu gritos vindo de dentro do lugar, era a voz de sua mãe, gritava de horror. Bruna não pensou duas vezes e saiu correndo para dentro das chamas, não sentiu o chamuscar de seu cabelo nem o calor na pele, ela só queria ir de encontro à sua mãe.
Encontrou ela caída em um canto da cozinha, uma pequena poça de sangue se formava ao redor dela. Martha usava a blusa que Bruna havia comprado de natal para ela, mas agora o que sobrara fora um rasgo e uma grande mancha de sangue. Bruna correu até a mãe, ajoelhou-se e a abraçou, gritou diversas vezes seu nome, gritava para qualquer um que pudesse ouvi-la, mas seus gritos ecoavam surdos em meio as chamas.
- Mãe! Mãe! - Ela balançava o corpo inerte no sue colo, chorava, gritava, mas nennhuma reação.
- Você mereceria o oscar pela dramatização garota. - Uma voz surgia das chamas.
Então o que ela viu adentrar no recinto não era humano, não poderia ser. Um ser com parte do corpo queimado, um terno de giz rasgado pelo fogo e pelas asas demoníacas que surgiam de suas costas, metade de seu rosto era nada além de carne queimada e apodrecida, mas na outra metade ela pôde reconhecer...
- Asmodeus! O que....
- Vou poupar as explicações querida, elas são necessárias. Vim aqui para terminar o que Lilith foi incapaz, vim aqui para te matar de uma vez por todas. Você não se incomoda não é?
- Você! Você matou minha mãe! - Ela gritava, mas sem parar de soluçar.
- Estamos constatando o óbvio agora? Porque você ainda não encontrou o corpo carbonizado da sua irmã lá em cima ou o do seu pai pendurado no terrado do meu prédio não é?
A família de Bruna, tudo o que ela tinha, havia acabado, não havia restad mais nada. Aquele... demônio havia tirado tudo o que ela tinha e agora iria tirar sua vida também. Ela não tinha forças para lutar, ela não queria lutar, não havia pelo que lutar. Abaixou a cabeça esperando pelo golpe final enquanto abraçava forte sua mãe. Sua vida, seus momentos passando bem diante dos seus olhos, um pequeno filme, tão breve...
Asmodeus desceu as garras sobre a cabeça da garota, o golpe final. Ele já podia sentir o gosto da vitória. Mas algo o deteve, uma força, parecia haver um escudo sobre a garota, uma barreira invisível que ele não conseguia transpor, um velho truque de proteção, um truque que ela jamais poderia ter. Er um antigo truque angélico chamado de Cápsula Divina. Ele se reteve e deu dois passos para trás.
- Mas o que? - Bruna se deu conta de que ele não poderia atingi-la, uma raiva súbita a dominou.
Um ódio brotou dentro de si, uma fúria que ela jamais experimentara. Ela abriu a boca e começou a conjurar encantamentos muito antigos, célticos. As palavras brotaram de sua boca enquanto ela lembrava das horas de treinamento e dos livros de encantamento que ela lia de sua mestra, uma wicca.
Uma labareda pareceu tomar forma e foi lançada contra Asmodeus arremessando ele em direção às chamas. Mas aquilo não o deteria, não por muito tempo. Bruna tentou levantar a mãe e correr para fora da casa.
- Acha que umas palavrinhas mágicas podem me deter mortal? Eu sou Asmodeus, um dos 4 príncipes infernais! - Ele se lançou contra ela, as asas capengas abertas dando a ele uma aparencia ainda mais aterradora.
Ele ouviu novas conjurações, mas dessa vez não vinham da garota. Eram mais fortes, era de alguém com mais poder. Dessa vez Asmodeus recuou.
Uma mulher apareceu nas chamas, ela vestia uma camisola branca, coberta por um robe da mesma cor, tinha os cabelos ruivos e olhos pareciam estar em chamas. Ela tinha um corpo esguio, mas caminhava com firmeza pelo fogo.
- Outra bruxa. - Asmodeus sorriu
A wicca conjurou mais encantamentos e uma onda de fogo se formou atrás dela derramando-se sobre o anjo caído, lançando ele numa parede que logo desabou sobre ele. Ele havia sido parado, pelo menos por ora.
A wicca correu na direção da Bruna e a abraçou, tentou tirar ela do fogo, conjurando para que as chamas saíssem do seu caminho.
- Vai ficar tudo bem minha criança.
- Mestra... Minha mãe...
Elas saíram do fogo, Bruna ainda abraçava a mãe, não a soltaria por nada. A mestra continuou forçando Bruna a caminhar até um monza vermelho estacionado na porta da casa em chamas. Elas ouviram sirenes dos bombeiros ao fundo, logo eles estariam ali. Mas o que a mestra queria era tirar as duas dali antes disso acontecer. Perguntas demais a responder e aquele não era o momento. Ela podia sentir a alma de Martha se esvaindo e se ela não agisse rápido Martha estaria morta.
- Precisamos sair daqui rápido. Coloque sua mãe no carro e vamos para minha casa já.
- Mestra...
- Faça.
Enquanto Bruna colocava a mãe dentro do carro viu uma silhueta se formar no fogo. Asmodeus ainda estava ali, mas deixaria elas irem embora, ele gostava de jogos e esse acabava de começar.
Continua......................................
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
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