sábado, 21 de janeiro de 2012

Cap.3 - A Little Piece of Heaven

Quando chegaram em casa, Bruna e Natalie se depararam com uma estranha visita. Um homem por volta de seus 50 anos, vestindo um belo terno risca de giz, com cabelos negros meio esvoaçados e usando mocassins estava sentado na mesa do café conversando com a mãe das garotas.
- Olá crianças. - O homem sorriu gentilmente, mas havia algo de cruel em seu sorriso entretanto era muito bem disfarçado pela boa aparência e boa fala que ele apresentava.
- Meninas esse é Asmodeus, ele é sócio do seu pai no escritório de advocacia. Veio dizer que ele deverá ficar por lá mais uma semana, algo sobre um contrato com uma multinacional, mas ainda não entendi muito bem.
- Fique tranquila Martha, tem minha palvra de que trarei seu marido inteiro e salvo daqui a uma semana.
- Papai vai ficar mais tempo fora? Por que ele não ligou? - Bruna perguntou desconfiada do homem, aliás parecia ser a única no recinto que sentia uma estranha repulsa em relação a ele.
- Ele está meio que... pendurado com os prazos. - O homem sorriu - mas em breve ele estará de volta.
Bruna aceitou a resposta, mas ainda permanecia desconfiada, o que era estranho, parecia haver algo sombrio e medonho por trás daquele homem. Algo que lhe causava arrepios. Naquele momento, no entanto, tudo com o que se preocupava era conseguir ir visitar Joaquim, conforme o combinado, mas a pressa era tanta que ela iria ignorar a vontade de esperar ele por mais um dia, chegaria no lugar combinado naquela mesma noite.
- Mãe posso pegar o carro emprestado hoje a noite? - Bruna pediu.
- Pra que minha filha?
- Queria visitar uma amiga que tem casa ali em Rio das Ostras, não vou demorar muito, só uma visita, ela me disse que estava ali hoje pelo telefone. - Ela tentou se esquivar.
- Ora Martha, deixe a menina ir. Deve ser importante a visita, não acontecerá nada demais. - Asmodeus tentou falar em favor da garota.
- Tudo bem então, você vai a noite certo? Então venha, vamos almoçar.
As garotas se sentaram na mesa enquanto Martha colocava o almoço, a tarde correu sem problemas. Asmodeus foi embora logo após o almoço, levou embora o camaro estacionado na frente da casa, carro que até então Bruna não havia reparado que estava ali. Quando a noite caiu, Bruna pegou o carro e partiu em direção a casa mencionada pelo anjo. Demorou um pouco para encontrar mas finalmente lá estava. Um velho chalé de madeira, em frente à praia, sem carros estacionados, a casa parecia fechada há anos e ela diria que estava abandonada não fosse por uma fraca luz que saía pela janela da frente.
Ela bateu duas vezes na porta até que uma senhora apareceu, parecia ter uns 70 anos, vestia uma camisola, estava pronta para ir dormir apesar de ainda ser apenas 21:00.
- Posso ver o Joaquim?
- Você veio mais cedo do que eu esperava menina. - A velhinha disse, bondosa - Mas entre, ele está lá em cima sentado no quarto.
Ela subiu as escadas devagar até o segundo andar do chalé. Entrou no quarto e viu Joaquim sentado, reclinado numa cadeira, o olhar perdido, parecia meio pálido, estava fraco, nem parecia o rapaz que a salvou na noite anterior de um lobo gigante e uma mulher de sombras.
- Joaquim? Você parece tão... pálido. O que houve? - Bruna estava preocupada.
- Eu fiz uma troca lembra? Eu te dei a minha essência, somente através disso você pode permanecer viva. Mas você veio mais cedo do que eu pedi, deveria começar a prestar atenção nos dias e horários menina. - Ele a repreendeu, mas ela nem mesmo deu ouvidos.
- Isso quer dizer que... você vai morrer?
- Morrer é um termo muito mortal, eu vou voltar para a Unidade, de certa forma continuarei existindo dentro de você, mas minha matéria se dissipará. - Ele falava tranquilamente.
- Mas isso é um absurdo! Você não pode morrer, nós partilhamos a sua essência, deve ser o suficiente para os dois. É loucura você morrer por minha causa, pára com isso! Há 2 dias eu nem mesmo acreditava em anjos, nem mesmo em Deus, e no momento em que eles finalmente se comprovam reais eu devo sobreviver as custas de um? Eu não quero.
- Criança, você não tem escolha. Minha tarefa era protegê-la, mantê-la viva e foi o que eu fiz. Você conhecerá outros anjos muito em breve, aliás muitos seres além de anjos, uns nem tanto agradáveis.
- Se você deve me proteger como morrer vai ajudar nisso?
- Fiz o que devia ser feito garota e chega dessa dicussão, o que eu fiz é irreversível, agora preste atenção, sente-se porque eu já não tenho muito tempo.
Bruna se sentou, inconformada com aquilo. Pra ela era um absurdo, sempre seria, as lágrimas lhe brotaram nos olhos, nunca havia lidado com a morte tão de perto. E tudo em apenas dois dias, anjos, demônios, sua vida de ponta a cabeça em cerca de 24 horas. Joaquim percebeu os pensamentos e sentimentos que borbulhavam dentro dela, ele a compreendeu e tentou confortar ela, mas não seria suficiente.
- Escute Bruna, eu queria ter mais tempo para te explicar tudo mas eu não tenho. As coisas aconteceram mais rápido do que eu imaginei e eu deveria ter me antecipado, mas fui negligente. Pelo meu erro você deverá sofrer, mas eu espero minimizar isso o máximo possível.
- Do que você está falando?
- Há muito tempo, milhares de anos na verdade, houve uma rebelião no céu. Havia um querubim ungido, seu nome era Lúcifer. Lúcifer era um dos anjos amados por Deus, mas ele tinha ambições ainda maiores. Lúcifer queria conhecer tudo, queria ser tudo, ele ambicionava demais e tramou uma conspiração. Ele era forte e belo, um excelente orador e fez promessas de um novo paraíso, uma nova ordem celestial de igualdade entre o criador e suas criaturas. Mas no fundo ele queria apenas tomar para si o trono do Pai. Muitos anjos se juntaram à sua causa. Cerca de um terço de todo o exército celeste colocou-se ao lado dele. Começou uma guerra civil que durou mais de mil anos e no final dela Lúcifer e seus anjos foram expulsos do paraíso e lançados numa dimensão obscura onde as trevas reinavam, um lugar de dor e tormentos... o que vocês chamam de inferno.
- Conheço essa história.
- Não, ainda não a conhece totalmente. Logo após isso Deus criou a terra e todas as coisas além dela no universo, moldou cada planeta e cada ser vivente. A espécie humana nasceu e floresceu, reproduzindo-se e ocupando a terra. Mas então veio a queda do homem, humanos se desviaram do plano original, conheceram o pecado, deixaram os demônios entrarem no meio deles, anjos caídos e no final faziam as maldades por si só. Não podíamos interferir, Deus havia presenteado eles com o livre arbítrio, fazendo deles, senhores de suas consciencias, diferentemente de nós que de certa forma estamos ligados às nossas missões. Podemos ter sentimentos, e até mesmo nossos defeitos, mas estamos ligados ao céu. Por exemplo, eu sou um querubim, um anjo de combate. Há também os serafins, anjos adoradores, conhecedores do universo. Há os mensageiros, os estudiosos, os anjos da guarda... Estamos ligados às nossas funções.
- É complicado de entender, não faz muito sentido.
- Em breve fará, mas me deixa continuar. Então um dia, algo aconteceu. Deus deixou o seu trono, havia se retirado do paraíso e simplesmente desapareceu. Isso foi há mais ou menos 12 anos terrestres. E desde então um novo conflito se iniciou no céu, a luta pelo trono de Deus. De um lado Miguel e Uriel, o príncipe dos arcanjos e seu irmão mais novo. Do outro Gabriel e Rafael lutam pelo poder, lutam para salvar a sua espécie.
- Como é? - Bruna se assustou
- Miguel e Uriel são radicais, cansaram-se das maldades cometidas pelos homens e estão decididos a destruí-los, limpar do universo a raça humana e logo depois começar a limpar o próprio inferno, arrombar seus portões e destruir Lúcifer e seus demônios. Já Gabriel e Rafael, prezam pelo direito de vocês usarem seu livre arbítrio, lutam para esperar a volta do Pai e o início do apocalipse. E enquanto essa batalha é travada nos céus, a Terra fica abandonada aos agentes do inferno, tornando-se domínio das trevas enquanto Lúcifer prepara uma nova investida, dessa vez para trazer o paraíso abaixo.
- Você está do lado de quem?
- Parece óbvio não é? Estou do lado de Gabriel e Rafael, mas não tem sido fácil, poucos anjos ainda estão na terra guiando os humanos, protegendo eles, enquanto a maioria de nós escolhe um lado e luta.
- Qual o meu papel nisso tudo? Por que sou tão importante, como uma simples mortal pode interferir em uma batalha de gigantes?
- Você é uma peça fundamental, mas nem mesmo eu sei seu papel. Sei apenas que deveria te proteger e falhei nessa missão.
- Você me salvou!
- Não a tempo. Não a tempo suficiente.
Joaquim começou a tossir fortemente e uma mancha de sangue surgiu no lenço que ele usava para limpar sua boca. Ele sabia que seu tempo estava acabando.
- Droga! Eu não vou nem mesmo finalizar o que tenho para te dizer.
- O que está falando? Você vai morrer agora? - Bruna começou a tremer e novamente as lágrimas brotaram em seu rosto, fizeram seu coração borbulhar...
- Bruna, você deve partir, voltar para junto da sua mãe e de sua irmã e protegê-las. Vocês não devem mais ficar aqui, voltem para o Rio de Janeiro. Vá até Botafogo, e procure por um anjo.
- O que? Isso é loucura, como espera que eu convença minha mãe a voltar para o Rio de Janeiro e como espera que eu ache um anjo em Botafogo? É doidera!
- Você saberá que é ele quando enconrá-lo, ele está.... na rua Voluntários da Pátria... perto de um...
Ele começou a tossir novamente, a hora havia chegado e Bruna deveria partir.
- Vá embora agora! - Ele gritou
- Fique calmo, não preciso sair daqui!
- Você não entende? Fui criado pela vontade de Deus, sou um espírito composto pela graça de Deus e energia. Eu lhe dei minha energia, mas a graça continua, é o que faz de mim um anjo e não um mortal e neste exato momento ela está se dissipando. Mas eu não posso conter, eu não posso controlar, eu não sei o que pode acontecer. Saia já daqui!
- Eu não quero! Eu não posso te deixar agora.
- Vá, você ainda tem muita coisa a fazer! - Seu corpo começou a brilhar, uma aura envolveu o lugar e de repente começou a ficar muito quente. Um peso invisível parecia cobrir o ambiente deixando Bruna com dificuldades para respirar.
- Vá... por favor...
Bruna tentou se arrastar para fora do quarto, com muita dificuldade desceu as escadas. Mas a aura parecia inundar toda a casa. A senhora idosa já não estava lá e Bruna não parou para se perguntar onde ela tinha ido. Saiu correndo da casa, girou a chave do fiesta que estava dirigindo e acelerou, para o mais longe possível daquele lugar. Quando já estava quase chegando na estrada viu uma explosão de luz que chegou até os céus, era como se um trovão se formasse debaixo para cima. Ela sentiu uma pressão no peito... Joaquim havia ido embora.
Já não havia mais jeito, não havia mais volta, tudo o que ela conhecia, tudo naquilo que acreditava estava prestes a mudar.
Era um caminho sem volta, um ponto sem retorno.














Continua..........................................................

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