terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Cap.5 - Never There

Rio de Janeiro, Cristo Redentor - 12 anos atrás

Do alto da estátua podia se ver uma silhueta. Um rapaz beirando seus 20 anos, vestindo uma camisa branca e uma calça jeans. De suas costas saíam um par de asas e na cintura ele carregava pendurada uma espada, muito parecida com as espadas gregas. Ele olhava fixamente no horizonte, os pensamentos perdidos muito longe dali. Na sua mente ele via os anos passando, as eras, desde o início dos tempos. Queria poder esquecer, queria não ser forçado a lembrar de cada momento, de cada luta, mas ele era um imortal, jamais se livraria desse fardo a não ser que seu corpo fosse destruído e sua existência voltasse à unidade do cosmo.
- Sabia que ficar remoendo suas dores não vai ajudar a curá-las? - Uma voz surgiu atrás dele, uma voz conhecida que há muito tempo não era ouvida.
Atrás dele um rapaz de cabelos loiros ondulados, olhos castanhos profundos e uma barba falhada espalhando-se pelo rosto. Parecia ter seus 30 anos e parecia estar vestido para uma guerra. Usava uma armadura completa de batalha, mas estava sem o elmo que ele segurava em uma das mãos. Da cintura, pendia uma espada negra como a noite, forjada na explosão do universo, uma arma indestrutível.
- É necessário pra eu não esquecer nenhuma delas, nem a mais idiota delas.
- Acho que viver entre os humanos por tanto tempo está te tornando um fraco. Já faz quanto tempo que não sai da Terra? Duzentos anos talvez?
O rapaz se virou para encarar o jovem loiro, havia ressentimento em seus olhos, havia muito mais do que isso, lá no fundo, um ódio era alimentado há décadas.
- O que você quer Uriel? Não teria algo melhor pra fazer como puxar o saco do seu irmão por exemplo? - O rapaz assumiu um tom irônico.
Uriel se aproximou, uma pequena chama surgiu em seus olhos e por um breve momento ele levou a mão à espada. Mas logo em seguida relaxou.
- Tinha me esquecido de que você nutria um sentimento protetor por esses pequenos bonecos de barro criados por Deus.
- São tão criaturas dele quanto eu ou você, Uriel. Sabe que se o Pai ouvir seus pensamentos você terá sérios problemas, ou você se esquece que Lúcifer começou assim também?
- Nunca me compare com um merda como aquele querubinzinho. Ele traiu a confiança do Pai, queria destruí-lo e tomar para si o lugar dele. Eu estou mais como um protetor das obras da criação. - Ele apontou para o horizonte. - Há mais de dez mil anos que os humanos destroem e manipulam a natureza, destroem a si mesmos e a tudo em sua volta. Não merecem este planeta, não merecem permanecer existindo.
O anjo se virou para Uriel, havia algo de errado, algo de diferente. Muitos anjos não gostavam dos humanos mas jamais se expressariam de forma tão aberta. Porque se o Pai os ouvisse, eles seriam condenados, expulsos do céu, a ordem sempre fora amar os humanos e os últimos desobedientes ocupavam o inferno agora. Ainda mais sendo Uriel um arcanjo, um ser da mais alta patente celestial, se ele chegava a esse ponto era porque algo estava acontecendo no céu, algo nada agradável.
- O que está havendo Uriel?
- Você está sendo convocado para se juntar as legiões de Miguel, velho amigo.
- Legiões de Miguel? Desde de quando elas pertencem a Miguel? Achei que todas pertencessem a Deus.
Uriel sorriu, esperava por aquela pergunta pois tinha a resposta na ponta da língua.
- As coisas mudaram um pouco e uma nova era está para começar. Na virada do milênio Deus deixou seu trono, abandonou o céu e se retirou. Ninguém sabe onde Ele está ou se irá retornar o que significa que nós, os arcanjos somos os novos governantes do Universo, mas nem todos parecem estar muito contentes com isso.
- O que você está falando? Isso... Isso é impossível, é uma mentira.
- Quem dera meu amigo, quem dera. O Pai nos deixou, nos abandonou à nossa própria sorte e por conseguinte abandonou também sua criação. - Uriel fez uma pausa. - Miguel e eu estamos reunindo algumas legiões para lutar contra os novos rebeldes celestiais, sabe como é, com uma mudança no poder nem todos ficam muito felizes, e é por isso que eu vim convocá-lo para se juntar a mim e a Miguel contra esses insurgentes. Todos sabem que Miguel é o governante de direito.
- Quem são os insurgentes? - O anjo perguntou.
- Gabriel e Rafael estão unindo suas tropas para se levantar contra Miguel. Uma atitude rebelde por parte de meus irmãozinhos, uma atitude que será severamente punida.
- Gabriel e Rafael nunca foram afixionados pelo poder. Por que agora? - O anjo sabia que havia algo mais por trás dessa história, algo que Uriel não estava contando.
- Uma pequena divergência de opniões.
- Quanto ao que?
- Tratamentos a serem dispensados para os bonecos de barro. - Uriel era sempre evasivo, era um diplomata celestial, era da sua natureza ser evasivo, negociar, enganar. Só havia um ser no universo que poderia ser melhor que ele nesse quesito, e esse era Lúcifer.
- Deixe eu advinhar... - O anjo escolheu as palavras com cuidado. - Você e Miguel pretendem destruir a humanidade enquanto Gabriel e Rafael querem evitar que isso aconteça.
- É uma forma simplista de ver as coisas, mas é por aí mesmo. - Uriel sorriu de um jeito irônico e cruel.
- Não acha que é idiotice vir até mim pedir ajuda? Você sabe o que penso sobre os humanos. Pro bem ou pro mal eles que se destruam sozinhos, não vou interferir de modo algum nisso. O que te leva a crer que lutaria ao seu lado?
- Você é um excelente soldado Daniel, um dos melhores lutadores que já vi. Deixou que um pequeno impasse tirasse sua força e sua coragem para lutar. Um erro que pode ser redimido, seria uma pena tê-lo como inimigo. Eu vim até aqui te oferecer poder, um poder que você jamais experimentou.
- Obrigado mas eu serei forçado a recusar, Uriel.
Uriel colocou a mão na bainha e puxou a espada. A lâmina negra exalava medo, angústia, era uma arma diferente de toda e qualquer outra existente. A lâmina que expulsou anjos caídos para o inferno, a lâmina que enfrentou Lúcifer. Um presente dado por Deus ao arcanjo guerreiro, líder dos querubins, uma arma indestrutível, assim como seu possuidor.
- Sabe porque essa espada é tão temida? - Uriel perguntou
- Não faço idéia. - Daniel levou a mão ao cinto para sacar sua espada, estava pronto para o combate se fosse necessári, mesmo contra um arcanjo, mesmo com a morte certa, não morreria sem lutar.
- Essa espada não costuma matar rapidamente. Um único corte dela e seu espírito se desprende de seu corpo, um único corte dela e anjos se tornam um corpo inerte, humanos se tornam bonecos, demonios e deuses... Todos destruídos por um único corte. Penso a você que reconsidere sua decisão Daniel.
- Minha decisão foi tomada.
Uriel colocou a espada em posição de ataque e partiu para cima de Daniel. Suas asas se abriram em pleno vôo, fazendo com que ele quase aterrizasse sobre o anjo. As duas figuras angélicas lutavam sobre o braço do Cristo Redentor, um espaço estreito, onde não poderiam haver erros.
Daniel desviou do ataque e teve que se apoiar na cabeça da estátua para não cair.
- Você está sem prática anjo! Ou deveria chamá-lo de mortal?
Daniel partiu novamente para o ataque. O sangue borbulhava em suas veias como há muito tempo não acontecia, desde o dia que mudou sua história, há muito tempo não era forçado a lutar, mas ele conhecia sensação, o êxtase da batalha.
A espada desceu em um ataque sobre Uriel, mas o arcanjo bloqueou e empurrou Daniel para fora da estátua. Daniel perdeu o equilíbrio e foi em direção ao solo, não conseguia evitar a queda. Suas asas estavam sem a força de antigamente. Quando caiu sobre o chão de cimento sentiu alguns ossos se partirem e o sangue escorrer pelo cimento.
Procurou sua espada com o olhar, mas não podia encontrá-la. Uriel aterrizou som os joelhos em suas costas e Daniel pôde sentir sua espinha se partindo.
- Procurava por isso? - Uriel gritava
Com a espada do próprio anjo em uma das mãos e a lâmina grega em outra, Uriel cortou as asas do anjo, amputando-as e deixando apenas dois cotos em suas costas. Um grito de dor ecoou pelo Corcovado, era humilhante ter suas asas cortadas, era a maior humilhação para qualquer anjo. Uma dor excruciante, uma dor mortal. Daniel gritava pela dor enquanto mais sangue escorria de seu corpo e agora de suas costas.
Uriel lançou o anjo aos pés da escada e jogou a espada do anjo ferido em sua direção. Daniel agarrou a espada e tentou se colocar de pé mas era inútil, a dor cegava, em breve ele apagaria.
- Você poderia ter tido tudo Daniel. Poderia ter sido general de legiões mas escolheu uma morte humilhante. Que assim seja!
Uriel se aproximou e cravou a lâmina negra na lateral do corpo do anjo. Daniel então sentiu uma onda elétrica percorrer todo seu corpo, sentia o sangue fluindo por sua boca, sentia seu espírito sendo arrancado.
Uriel pegou o corpo quase inerte do anjo e o lançou o mais longe que pôde em direção à baía de Guanabara. Enquanto caía Daniel sentia a graça de Deus fluindo para fora do seu corpo, sentia as energias o abandonando e começou a ficar tudo tão escuro...
Tão escuro e logo ele já não via mais nada, já não sentia mais nada... Seus pensamentos ecoavam no vazio, ele abraçava a morte, como um mortal.













Continua....................................................................

Nenhum comentário:

Postar um comentário