Tudo o que Daniel pôde ouvir foi um baque surdo na água, sua mente estava longe dali, seu corpo ia direto para o fundo da baía, sem resistência, sem luta. Estava acabado. Sua vida ia passando diante dos seus olhos, desde o início dos tempos, a grande explosão, a criação do universo, as lutas contra os humanos, as lutas ao seu lado, os amigos que perdeu, as paixões que sentiu. Quanto mais ele lembrava mais ele percebia que não morreria como um anjo, morreria como um homem, um mortal, suas experiências afastaram seus irmãos anjos dele, mas deu a ele a oportunidade de morrer com outros 6 bilhões de irmãos e irmãs. Morreria sem a graça de um anjo e sangrando como um mortal.
Então algo parou sua queda, seu corpo fora amortecido por algo e esse algo se movia, se movia com rapidez e fluidez pelas águas do oceano em direção ao oceano. Tudo ficou escuro e sua mente se apagou.
Quando acordou novamente enxergou uma espécie de teto, sentia-se vivo ainda, apesar dos ferimentos e cortes que lhe causavam dor estava vivo. Uma criatura apareceu diante dele, ela flutuava no ar, metade humana, metade peixe. Ao redor dela outros seres com a mesma humanóide, mas com misturas de peixe, alguns possuíam pernas e cabeças de peixe, outros pareciam humanos com barbatanas. Seres que em mais de 1 bilhão de anos ele jamais havia visto ou sabia que existia.
Então surgiu um ser diferente no meio deles, mais imponente, mais ancestral. Parecia um homem por volta de seus 50 anos, possuía barbatanas e guelrras brotavam em seu rosto. Sua pele era verde como a água do mar e ele possuía escamas espalhadas pelo corpo. Foi somente então que Daniel percebeu que era ele quem estava preso, estava dentro de uma espécie de incubadora com oxigênio enquanto todos os outros seres nadavam pelas águas.
O ser à sua frente disse algumas palavras que ele não pôde ouvir ou compreender e logo os demais saíram da sala. Um grande ruído surgiu no fundo e parecia que agora toda a sala estava envolta por uma esfera de ar, uma grande incubadora. O ser então retirou o vidro que o cobria e o suprimento de oxigênio de Daniel e começou a falar novamente, dessa vez em uma língua que Daniel compreendia, mas uma língua muito antiga, da aurora dos tempos.
- Sente-se melhor anjo? - O ser dizia.
- Quem... quem é você? - Daniel balbuciava e tentava se colocar de pé, sentia-se exausto, moído, uma dor lhe rasgava o espírito.
- O problema de vocês anjos é que nunca souberam agradecer, é assim desde de que Deus os criou e provavelmente permanecerão assim até o fim dos tempos.
- Como pode saber tanto sobre anjos, aliás como você pode existir, eu ando pelo universo desde a criação dele e nunca nem ouvi falar de seres como você.
- Concerteza já ouviu falar sobre mim anjo. - O ser sorriu - Já tive muitos nomes ao longo de minha existência, os mais ancestrais me chamavam de Oceanus, depois passaram a me chamar de Poseidon, Netuno... Pode me chamar pelo meu nome mais antigo, aquele que os primeiros mortais me diziam: Oceanus.
- Está me dizendo que você é uma lenda? - Daniel parecia incrédulo, mesmo para um anjo, aquilo era impossível,já teria ouvido falar daquele ser.
Oceanus se sentou em uma cadeira perto da incubadora e olhou bem fundo dentro de Daniel. Tinha olhos azuis da cor do mar e se olhasse fixamente para eles poderia jurar que via o movimento das ondas e das marés. Oceanus era um ser ancestral, não tão antigo quanto Daniel, mas parecia exibir uma sabedoria profunda, muito anterior à aurora dos tempos.
- Me deixe te contar uma história garoto. - Ele começou. - Lembra-se de quando o Pai criou este planeta?
- Lembro, eu fui designado para vir e confraternizar com as primeiras comunidades humanas há mais de cem mil anos atrás, vivi no meio deles, ensinei o caminho que o Pai havia escolhido para eles... Mas como pode ver não fui muito bem sucedido nessa tarefa.
- Existe uma parte da história que você não sabe, meu jovem. Deus saberia que chegaria o momento em que anjos e homens lutariam em lados opostos e do mesmo lado. Ele sabia que uma hora ou outra a terra chegaria a um desequilíbrio que alcançaria seu auge na batalha final. Mas ele não podia mudar o curso dessa história, ou melhor ele teria o poder necessário, mas ele jurou não interferir na vida dos homens, determinando seus destinos. Cada alma do planeta possui o livre arbítrio, a escolha de seu próprio caminho, Deus jamais forçaria isso às suas criaturas. Foi por isso que ele fez a forma do jeito que fez.
- Redonda? - O anjo não conseguia deixar o sarcasmo de lado e até Oceanus não pôde segurar a risada, era como o som do mar quebrando em ondas na praia.
- Não, ele fez da Terra uma forma de vida, assim como tudo que nela há. A terra, o ar, o fogo, a água, o metal, os trovões... tudo possui um espírito, todos são seres viventes.
- Isso é impossível, já teria ouvido falar de vocês, Deus não esconderia a existência de seres como vocês de seus anjos.
- É aí que se engana meu rapaz. Deus sabia que a ganância e orgulho corromperiam os anjos, sabia que eles se rebelariam e voltariam-se contra a humanidade. Por isso Ele nos deixou aqui escondidos de vocês, para governarmos a Terra guiando os humanos e limitando seus avanços e para proteger os homens de investidas angélicas que levassem ao fim da espécie Homo sapiens. Durante milênios estamos regulando os humanos e escondendo nossas atividades e nossas existências de vocês, não podemos impedir todas as catástrofes, mas podemos limitar seus danos e é isso que temos feito há anos.
- Pelo visto você não gosta muito de anjos.
- Lúcifer comanda o inferno e tem hostes prontas para vir a terra e depois ascender aos céus. Enquanto isso uma guerra civil se inicia para devastar o céu. Os homens estão abandonados à própria sorte e rumando para a destruição. Minha função e a dos elementais é impedir isso, preservar a obra de Deus até mesmo dela mesmo.
- Perde seu tempo Oceanus, os humanos destroem a si mesmos. Tudo o que anjos e demônios farão apenas acelerará o processo que os próprios humanos começaram, não há salvação. O próprio Deus se retirou do trono abandonando todo o universo à própria sorte. Sua luta é inútil. - A mágoa falava cada vez mais alto dentro de Daniel.
- Você perdeu a sua fé guerreiro? Perdeu a fé na espécie pela qual lutou e pela qual morreu? Acha mesmo um caminho sem volta? Deus pode ter deixado seu trono, mas não significa que abandonou todos os seus filhos.
- O que quer dizer Oceanus?
- O que ele quer dizer é que nós não perdemos a fé neste planeta, não perdemos a fé nos humanos, não perdemos nem mesmo a fé de que anjos como você podem mudar o destino de todos, evitando aquilo que ainda está por vir! - Uma voz ecoou do outro lado da câmara, uma voz forte que fazia todo o lugar tremer, então com ele veio o calor que fez até mesmo Daniel suar.
Daniel se virou e viu um senhor da mesma idade de Oceanus, mas mais barrigudo, mais forte, com o corpo vermelho e os cabelos em chamas, ele caminhava devagar mas fazia seus passos ecoarem no lugar.
- Esse é meu irmão, você pode chamá-lo de Volcano. - Oceanus disse
- Senhor das chamas, o espírito regente do fogo, a construção e a destruição de tudo aquilo que existe. - Volcano sorriu e então se virou para Oceanus. - Foi por isso que me chamou irmão? Para dar broncas em anjos renegados? Por favor não será com ele que poderemos virar o jogo! Não podia ser dele que o Pai estava falando.
Daniel olhou para os dois seres que ele jamais pensou existir, mas a última frase de Volcano fez Daniel tentar se levantar. "O Pai"? Eles haviam visto Deus depois que Ele deixou seu trono?
- Vocês viram a Deus?
- Claro garoto, todos já viram a Deus. - Volcano disse.
- Estou falando depois que Ele deixou os céus!
- Tudo obedece a um plano, Deus pode não interferir no curso das coisas, mas certamente não iria deixar elas caminharem para o fim sem ao menos tentar reverter a destruição iminente, Ele pode não quebrar suas próprias leis, mas até mesmo Ele pode achar um jeito de burlar e salvar a todos. - Oceanus disse e então olhou novamente Daniel bem dentro de seus olhos. - E você meu rapaz foi o escolhido para essa missão e agora que te vejo entendo o porquê.
- Por que? - Daniel e Volcano falaram juntos.
- Porque eu vejo em você o amor pela criação. Vejo a esperança dentro de seus olhos, vejo a mesma força que iniciou o Big Bang, vejo a determinação para parar até mesmo Lúcifer. - Oceanus sorriu e se levantou da cadeira. - Agora levante-se ainda temos muito o que falar.
Continua..................................................................
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
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